MÓDULO ESTATUETAS​

O CORPO E SEUS MÚLTIPLOS SENTIDOS NA ESTATUÁRIA

Juliana Ribeiro da Silva Bevilacqua

Gabrielle Nascimento

 

A seleção de estatuetas aqui apresentada tem como objetivo convidar o visitante a conhecer e explorar os múltiplos sentidos do corpo na arte africana. Todas elas apresentam padrões formais que remetem a culturas africanas específicas, o que nos possibilita destacar características corporais que possuem significados particulares para as populações a que elas remetem. Ao mesmo tempo, essas mesmas obras podem apresentar padrões que transcendem uma cultura em particular e que são compartilhados amplamente entre diversas populações africanas.

As estatuetas de culto ancestral dos povos hemba, como é o caso das duas obras assim identificadas na exposição, ao mesmo tempo que reúnem características que são específicas dessas populações, apresentam outras encontradas de forma mais ampla. As estatuetas comunicam uma postura corporal de equilíbrio. A face, com os olhos cerrados ou semicerrados, simboliza a plenitude e a serenidade, atributos conquistados por aqueles que, após uma longa vida de aprendizado e sabedoria, tornaram-se ancestrais. Apesar de estilisticamente distintas, ambas apresentam alguns atributos em comum, como o abdome inflado, o umbigo proeminente, simbolizando a fertilidade e o elo e continuidade da família ou da linhagem. As pernas com os joelhos flexionados não são exclusividade desse tipo de obra. Trata-se de um padrão compartilhado por muitos povos africanos e está relacionado ao contato simbólico com o chão e com a terra. É raro, aliás, encontrar estatuetas cujos corpos são rígidos. Além dos joelhos flexionados, os braços geralmente estão com os cotovelos levemente dobrados, indicando movimento. Quando analisadas de perfil, muitas estatuetas apresentam linhas que remetem ao zigue-zague, expressando a fluidez da vida.
 
A obras selecionadas destacam-se também pelos seus corpos praticamente intocados desde que foram esculpidos. Intocados no sentido de que não foram transformados ou modificados pelo seu uso ao longo do tempo. Alguns objetos de arte africana em coleções apresentam um acúmulo de substâncias e elementos do mundo mineral, vegetal e animal que marcam não apenas a sua “biografia”, mas também seus corpos. Eles ganham novos contornos a partir dos cuidados e atenção dispensados enquanto faziam parte de uma determinada comunidade.

As estatuetas songye, identificadas como “dotadas de força”, são um exemplo do que podemos chamar de objeto em processo, ou seja, que estão em constante transformação. Os seus corpos são comumente utilizados como um veículo para que substâncias sejam cuidadosamente inseridas ao longo do tempo. A introdução desses elementos ligados à natureza tem o poder de potencializar a estatueta e dotá-la de força, fazendo-a cumprir diversas funções relacionadas ao restabelecimento do equilíbrio na comunidade. Curiosamente, a obra songye apresentada na exposição conta apenas com alguns poucos elementos que cobrem parcialmente o seu corpo. Ela não apresenta marcas de acúmulo de material orgânico e de exposição às intempéries, o que define a sua trajetória particular.

 

Exemplo parecido pode ser observado nas estatuetas de gêmeos Ibeji. Esses objetos são ainda hoje utilizados pelos iorubás, populações que possuem uma das mais altas taxas de natalidade de gêmeos do mundo. Apesar de considerarem esse tipo de nascimento algo muito positivo para a família, a taxa de mortalidade é alta, sobretudo pelo parto prematuro. Assim, quando ocorre o falecimento de um ou dois filhos, a mãe ameniza essa perda com o uso de uma estatueta que representa e honra o filho morto. A explicação para essa “substituição” está na crença de que gêmeos possuem uma ligação profunda entre eles e compartilham uma mesma alma. O falecimento é considerado, portanto, um grande desequilíbrio na família. A mãe busca retomar o equilíbrio perdido cuidando da estatueta, oferecendo-lhe alimentos, ornamentos, banhos e passeios junto ao seu próprio corpo, de forma parecida como se carrega um bebê em muitos lugares da África. Ao longo dessa contínua interação, as estatuetas vão se modificando e ganhando novos contornos e sentidos.
 
Apesar de ornamentado, o par de Ibeji da exposição não parece ter recebido os cuidados de alguma mãe e não apresenta marcas dessa interação. Os seus corpos revelam, no entanto, os padrões básicos que definem essas estatuetas como sendo de Ibeji. A cabeça exibe um penteado elaborado e é proporcionalmente maior que o corpo; os braços correm paralelos ao torso e as mãos pousam na lateral das pernas, que estão levemente flexionadas. Apesar de os pés estarem apoiados em uma base, uma característica marcante desse tipo de estatueta, o seu corpo não é rígido.
 
Sem dúvida, o corpo é indicativo das trajetórias particulares de cada obra, independentemente de ele ter sofrido intervenções ou transformações ao longo do tempo. Novos sentidos e significados podem ser atribuídos a corpos modificados ou aparentemente intocados. No final das contas, esse universo de possibilidades nos mostra que a arte africana é plural e que cada objeto é único, ainda que compartilhe semelhanças formais ou códigos culturais.

 

Exposição Ausência PresençaPUCC
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